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Por Maria Amália Cursino

5 de Abril de 2021, 13h24

Um corpo preto: o que e onde cabe?

O CORPO PRETO É UM CORPO POLÍTICO.

O CORPO PRETO É UM CORPO FILOSÓFICO.

O CORPO PRETO É UMA LINGUAGEM EM SI.

O CORPO PRETO: “SINTO, DANÇO, LOGO EXISTO”

O CORPO PRETO ENQUANTO PLATAFORMA, que sustenta o binômio Corporeidade — Oralidade.

O CORPO PRETO É UM CORPO ESTRANHO NO TECIDO SOCIAL RACISTA.

 

Corpes negres são corpes estranhes. Nilma Lino Gomes sentenciou na 8ª Conferência Latino-Americana e do Caribe sobre Ciências Sociais, na Argentina. Ilustro essa sentença utilizando a metáfora do antígeno-anticorpo.

 

Seria como se nós, pretes, fôssemos antígenos incuráveis que invadiram o tecido social, a serem implacavelmente combatidos pelos anti-corpos-negros da branquidade, que investem todo seu arsenal necropolítico como linha de defesa de suas usurpações para manutenção da brutalidade colonial, do letal cisheteropatriarcado, das inúmeras camadas excludentes fornecidas pelo capitalismo, bem como pelas faces injustas dos racismos estrutural, institucional e cotidiano.

 

O corpo social padece, já que não se trata do combate a antígenos. Trata-se de uma doença autoimune, que ataca as próprias defesas erradamente decodificadas como corpes estranhes. É uma guerra contra si: o corpo social aliena grande parte de sua integridade, resultando em graves baixas e um estado permanente de enfermidade social.

 

Diagnosticam levianamente, medicam equivocadamente, enquanto as baixas físicas e simbólicas des corpes pretes se dão vertiginosamente, tanto quanto a sua velocidade de alastramento e capilaridade, do entendimento cada vez mais profundo por parte desses corpes estranhes como corpos-constituintes desta sociedade e do enraizamento em toda sua pujança desses anti-corpes-negres/anti-matéria-escura/corpes matáveis pelas engrenagens brancocráticas.

 

Somos o desespero e o desengano da branquidade morimbunda, que não enxerga saída para a falência de sua construção de mundo a não ser aniquilando o que também a constitui, sobretudo no sul global, onde es corpes estranhes são e estão em maior número, extravasando, ainda, na aniquilação dos Reinos da Vida. Que se danem todes!

 

Enxergo o Cinema Negro como esse grande campo de liberdades fabulativas/narrativas/criativas, onde estão circunscritas as diferentes linguagens – referenciais e artísticas – que dão suporte às nossas representações. A inscrição e autoinscrição des negres no campo audiovisual e o alcance das narrativas, dos discursos, das cadeias de valor, produção e realização através dos imaginários que construímos e carregamos, são como LENTES que ampliam e apontam sublimações possíveis – porém não livres das dores, das fissuras e das tensões já previstas – através dos referenciais culturais, simbólicos, subjetivos, indissociáveis ao bem-estar social.

 

A comunicação, seus campos e linguagens identificam e privilegiam certas humanidades, contribuindo para a difusão facilitada – não osmótica e unilateral, mas, sim, aguardando as ressonâncias a partir de nossas provocações – de nossas existências, nossas produções simbólicas e nossas vozes.

 

Como fazê-los enxergar? Como esmiuçar e detalhar nossas histórias, nosso cotidiano, nossos territórios e nosso fazer fílmico? O cinema negro possibilita deslocamentos radicais e potentes. O novo, novas gramáticas visuais, territórios sonoros, planos e diegeses a partir do que bem conhecemos: nosso cotidiano, nosses corpes. Irrompe silêncios, processos inaudíveis à realização e às audiências brancas hegemônicas – fazendo valer o nosso direito à opacidade a que Glissant se refere enquanto nossa forma de subsistir em nossas irredutíveis singularidades de nossas imagens e existências. E é claro que vão deflagrar as tensões que observamos em todos os processos de expansão das fronteiras das negritudes.

 

Gostaria de oferecer uma perspectiva a partir do livro “Pensar Nagô”, de Muniz Sodré, que discorre sobre a violência cultural e simbólica, a que chama semiocídio ontológico:

A reflexão hegeliana é pertinente ao se levar em conta o universalismo cristão, incrustado no universalismo da cultura, construiu-se em nome do espírito em detrimento do corpo. A separação radical entre um e outro é um fato teológico com grandes consequências políticas ao longo da história: no domínio planetário das terras e dos povos ditos “exóticos”, as tropas dos conquistadores pilhavam ouro e corpos humanos, enquanto os evangelizadores (jesuítas, franciscanos), pilhavam almas. A violência civilizatória da apropriação material era, na verdade, precedida pela violência cultural ou simbólica — uma operação de “semiocídio”, em que se extermina o sentido do Outro — da catequese monoteísta, para a qual o corpo exótico era destituído de espírito, ao modo de um receptáculo vazio que poderia ser preenchido pelas inscrições representativas do verbo cristão. O semiocídio ontológico perpetrado pelos evangelizadores foi o pressuposto do genocídio físico. (Sodré, Muniz. Pensar Nagô — Petrópolis, RJ: Vozes, 2017 p. 101)

Ou seja, sempre foi um projeto o nosso extermínio e ele começou de forma muito eficiente: alienando nosso sentido de ser e existir — por sermos desprovidos de espírito — nos forçando a dar voltas e mais voltas na árvore do esquecimento, nos destituindo dos nossos pressupostos culturais e simbólicos para que nos tornássemos CORPOS MATÁVEIS. Existe uma lógica, um racional, uma construção para justificar nosso extermínio, para fazer desaparecer nossos corpos.

 

Sendo assim, reontologizar é preciso. Precisamos ser nossos próprios restituintes do nosso sentido de ser e existir. As políticas e os regimes das imagens, no Cinema Negro enquanto MOVIMENTO, são percursos técnico-poéticos de insubordinação simbólica e fabulativa de enfrentamento ao cisheteropatriarcado racista capitalista. E mais: quando alcançamos as dimensões interseccionais, considerando, ainda, gênero e sexualidade impressionando nossas retinas em frames nas telas, são adicionadas camadas ainda mais violentas aos nossos fazeres, inclusive fílmicos.

Em “Você já tentou olhar nos meus olhos?” (Tiago Felipe, Paraná, 2020, 4min), a escolha pela edição de fotografias do corpo preto em diferentes situações cotidianas evoca a ideia de um corpo fragmentado. Interferências sonoras na fala daquele corpo preto, a imposição do ritmo da edição, a tela preta vazia, a inscrição do título: escolhas técnico-estéticas com a intenção de demonstrar o quanto aquele corpo preto busca sua inteireza, propondo, para tanto, que ele realmente seja visto, fitado, enxergado, olhado. Nos olhos. 

Em “À beira do planeta mainha soprou a gente” (Bruna Barros e Bruna Castro, Bahia, 2020, 13min), existe extrema força tanto na delicadeza da composição de imagens do cotidiano, capturadas em suporte digital amador, na relação de apoteose, liberdade e amor entre duas sapatonas a partir de uma do entendimento de como a mãe de uma delas elabora sua perspectiva de acolhimento e aceitação. Imagens e textos transbordam a poesia da simplicidade constitutiva do ser liberto: as Brunas, amalgamadas no projeto de vida em comum, pulsam futuros possíveis de suas existências, política e simbolicamente, a cada oferta de si próprias expressa durante toda a narrativa.

 

Os dois curtas oferecem propostas para a denegação dos TRAUMAS existenciais instalados. Nos oferecem possibilidades de continuar a despeito de tantas violências a que somos submetides.

 

Exu matou um pássaro ontem com a pedra que arremessou somente hoje.

 

Ambos os filmes encampam, em seus territórios imagéticos, corpes pretes presentificados em seus cotidianos elevados à potência do aforismo de Exu. Entendendo: a grande chave do “Tempo Exu”, segundo Muniz Sodré em “Pensar Nagô”, está na invenção, no princípio inaugural para além do tempo linear. São esses corpes pretes – fragmentados, não desejados – que fazem “a história de seu grupo, logo, constroem o seu tempo.” Assim, seus cotidianos são inaugurais, são oferecimentos de passados, presentes e futuros em constante trânsito, estando atrás e adiante de si mesmos. É a potência, enfim, de dar, receber e restituir para todes e para si própries.

 

A partir do exposto, diferentemente da ideia que se poderia concluir de que seriam, portanto, corpes que se bastariam, o que demonstram nas imagens de seus cotidianos, envoltas nessa potência exusística, é exatamente o contrário. Corpes pretes, oferecides em suas fragmentações e enquanto repositórios de violências e violações, estão implicados nas próprias existências cotidianas bem como nos cotidianos-satélites, na coletividade que orbita e tangencia suas dimensões de ser e de estar no mundo, movendo, comunicando, revelando, mais e mais vezes, atrás e adiante.

 

Vivências nascentes e poentes refundantes: dinâmica, comutativa, simultânea e pendularmente.

 

Existem caminhos, ressignificamos e mergulhamos fundo nos olhos, janelas do nosso mundo interno, que reverberam e depuram o entorno des corpes pretes.

 

O CORPO PRETO. Nele tudo cabe.

 

E cabe na medida das fissuras, dos alargamentos, das distensões, dos deslocamentos radicais que produzimos enquanto caminhamos sobre os escombros da grande noite do fim do mundo.