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Por Egberto Santana Nunes

30 de Março de 2021, 00h20

Sobre um tempo perdido?

A viagem pelos terrenos de Preces Precipitadas de um Lugar Sagrado que Não Existe Mais me soa como uma súbita transportação para outros espaços, sendo estes a própria viagem que o protagonista é levado a realizar. Numa primeira cena, estamos num ponto de ônibus, de madrugada, preocupados com a volta para casa após uma festa de reggae. Após uma corrida, desesperados, acordamos num rio, convidados a atravessar uma mata e a viajar pelo tempo, e a preocupação sobre o lugar inesperado é logo avançada para a tentativa de entendimento da travessia a ser realizada – “que porra é essa?” é a primeira fala de um dos personagens, Breno, ao levantar das águas. 

 

O que surge como “outro lugar” vira uma sequência de sugestões, demarcações de discursos, desejos (preces?) que compõem um dado universo, a Zona de Sacrifício, nascido de um “paradoxo da descontinuidade“; e formado por uma “miscigenação de realidades”, como diz a sinopse de Vinícius Andrade no site do FestcurtasBH. A intenção aqui é viajar para o passado e refazer a história, para voltar ao futuro, tempo de onde as que já estavam nesse paradoxo vieram. Parece que, então, é possível. Ou, como na visão de Breno, tudo é só um sonho.

 

O paradoxo vive um não-lugar, construído através dos desejos da diáspora periférica e montado a partir do que se está olhando. As sequências dos diálogos de estratégia do grupo nos tiram da ficção, como se o manejo do aparato futurístico fosse redimensionado para as geografias do cotidiano, onde esses ‘futuros’ podem acontecer numa calçada qualquer, num lago abandonado ou numa garagem. E são?  Ao mesmo tempo, não é precário. É tátil, é reconhecido, e também, é tudo muito menos documentário. 

 

Há um mecanismo interessante aqui de manter essa sensação dilatada enquanto os personagens são movidos aos poucos de seus espaços, como relances de um universo que está sendo observado de cima, ainda que controlado para nos mostrar apenas os passos mais importantes e decisivos dessa tentativa de reconquista.

 

Mas gostaria de virar o olhar para um gesto do filme que parece longe de tudo isso. Falo da tela preta em que os pensamentos de Akim, Breno e Zuri tomam conta a partir de suas vozes, como diários dos dias que passam, seus desabafos pessoais. 

 

À princípio, parece que as ações do filme já transmitem os desejos, sem que seja preciso a sua declaração, mas acredito ter algo a mais aqui. A ausência como modo de partida e mecanismo para a continuidade. Pois se estamos falando de uma viagem para algum lugar, como ver essa viagem? Como estão viajando? Como chegam ali? 

 

É longe dos cenários de estratégia, é longe das marcações de discurso e intenção, é longe do conflito de entendimento que Breno tem com as outras personagens. Estamos sendo aludidos para onde? Em que lugar estamos? Que tempo é esse? “Que porra é essa?”

 

Aqui, a distância está entre o lugar da partida e o meio da chegada. Nós entramos como terceiro elemento na cena. Porque é pela tela preta, que estrategicamente cria um repouso dos cenários, por onde consigo caminhar sobre aquilo que se sente nessa viagem e nas suas intenções.

 

E eu me encaro, ouço e imagino. Encaro a mim mesmo, pois essa imagem, essa tela me reflete (na espectatorialidade pandêmica, todo escuro dos filmes inevitavelmente revela nossos rostos nos monitores), e é, ao mesmo tempo, nosso deslocamento pela história, e agora, nosso deslocamento de sensações. Assim, imagino, então, o que está se passando. Onde estou caminhando? Para onde quero ir? É uma fabulação momentânea, um corte que resiste apenas a ser corte, que, por mais que também posiciona o tempo, é nele que me perco.

 

O que se esconde atrás dessa feitura? Quais caminhos estão sendo seguidos? O gesto da ausência dos corpos, e ao mesmo tempo, a deliberação da presença através do que eles pensam nos leva a imaginar e viajar junto.

 

São conversas, possibilidades e desejos que vão se concatenando e caminhando pelo filme, como simples recortes de algo maior que os 20 minutos propostos. E, se falo em tempo, é porque esse é um recurso dilatado no filme. Ao mesmo tempo em que é sempre demarcado pelos personagens, que lembram a todo momento de onde vieram, para onde querem ir e o que estão fazendo ali, ainda que nenhuma medida de tempo pareça palpável, além do desejo, que parece se formar pelas marcas que essas pessoas deixam. 

 

No fim, são os relances desses signos, da plenitude da sensação perdida, que formam o título. São os desejos que formam as preces que a obra declama, precipitadas, porque tudo parece atrasado e tarde demais, como qualquer sonho, que é lugar sagrado, e que já não existe mais.