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Por Juliana Oliveira Santos

19 de Abril de 2021, 19h00

Sensações que queimam mais que a luz

Quando minha família fazia festas para comemorar o aniversário de algum familiar, as câmeras fotográficas não podiam faltar. Meu pai tinha duas máquinas que precisavam de filme para funcionar, uma preta e uma prata. A qualidade das fotos não era das melhores, mas registrar os corpos naquele momento específico, com todos juntos, era o suficiente. Utilizar a câmera fotográfica como registro de memória, lembrança e momentos da vida há algum tempo já vem sendo algo extremamente comum. Principalmente agora onde o uso da tecnologia anda sempre em frente, rumo ao futuro.

Registrar corpos.
Guardar momentos.

E as experiências corpóreas?
E as sensações?

Escondidos do mundo, em um estúdio fotográfico com pouca iluminação, com duas paredes pintadas de preto e uma parede de tijolos, são oferecidos encontros fotográficos que permitem a participação de todos os tipos de corpos, gêneros, tamanhos e cores. O local que parece uma caixinha de segredos por dentro, ao lado de fora também se diferencia de outros estabelecimentos convencionais. Para ter acesso ao local é necessário entrar em contato com a sua dona, já que não há o endereço nos cartazes espalhados pela cidade. Sua discreta fachada não o localiza como sendo um estúdio fotográfico.

O local serve de encontro para dois corpos: o de uma profissional responsável pelas fotos, e o do/da modelo. Juntos, ambos se cruzam e se fundem em uma experiência carnal enquanto a câmera registra o momento, na tentativa de capturar essas figuras através da luz. Os corpos que habitam o filme se assemelham com o local onde se fundem, todos misteriosos, com seus rostos (ou corpos) quase nunca revelados, com a exceção de uma modelo, Tereza.

Há aqui um universo ainda em construção, com alguns elementos que o formam pouco a pouco. Há uma parede em tijolos utilizada como fundo para as fotos que são tiradas enquanto os corpos estão em movimento, um sempre preenchendo o outro. Os corpos também sempre em processo de soma, construção. Além dos encontros fotográficos, Louise, a fotógrafa, ainda cobre outros eventos como casamentos e aniversários. Um processo dinâmico de composição: concreta, corpórea, monetária, sensorial.

“Chegou assim cavalo puro
Boca grande, braços firmes, olhos fixos
Mãos, dedos duros
Entrando por dentro da roupa”
(Cavalo – Noporn)

O filme caminha entre dois campos. Em contraponto com a harmonia do mundo construído a partir dos encontros desses corpos múltiplos, há a casa de Louise, lar do conflito existente entre mãe e filha. Um ambiente com luzes sempre acesas, no qual a televisão está sempre sintonizada em um canal religioso pelo qual sua mãe acompanha as pregações. Apesar de não ouvir a voz da mãe, a insatisfação está expressa em seu corpo, no olhar ranzinza, na boca envergada para baixo, em tom de reprovação pela fotógrafa mudar o canal religioso para um novo no qual não é possível ver, mas ouvir uma jovem mulher que afirma querer contar histórias de pessoas como ela: mulheres negras, lésbicas, que vêm da periferia. É dessa forma que o filme desenvolve o choque geracional, enquanto mãe e filha estão lado a lado, a primeira na cadeira de rodas e a segunda no sofá, a câmera às captura de lado, onde não é possível visualizar a televisão em nenhum momento, somente ouvi-la e acompanhar os olhares das personagens, e suas reações diante do que veem e ouvem.

Após a chegada de Tereza no estúdio fotográfico, acompanhá-la é uma nova sequência de descobertas de segredos. Não é possível saber que ela está presente até que Louise diga seu nome e a câmera a apresente, saindo de um plano focado somente na fotografa, abrindo-o e mostrando a jovem moça sentada logo atrás, que enquanto diz não se importar em ser fotografada desnuda, enverga seu corpo para trás. Seu interesse no processo, nem ela mesma sabe. Mas o fato é que no momento em que ambos os corpos se encontram no processo fotográfico, a cada passo que uma dá em direção a outra para o encontro carnal, enquanto fisicamente há uma fusão de duas em uma, na fotografia seus corpos se multiplicam, deixando o rastro de várias, advindas delas duas, pelo caminho.

A câmera é prisma, enquanto seus corpos reais são a luz branca. Seus corpos registrados na fotografia são as múltiplas cores que se dissipam a partir do branco e formam algo novo. Incorpóreo, imaterial, mesmo sendo o completo oposto. Visível, mas intocável. Através de algo (um universo?) criado a partir delas, para elas.

Tereza já é, agora, parte dessa construção. A câmera ao captá-la em frente a parede de blocos, próxima aos desenhos de outras mulheres na parede, já tem sua marca registrada na construção do projeto, do estúdio, da fotógrafa, da simbiose de ser e estar. Reforçando a ideia do próprio filme de não poder ser antecipado, sempre ocultando o que virá em seguida. A cada nova cena, De Vez em Quando eu Ardo entrega um novo segredo: o aspecto do estúdio ser um local escondido; não ter acesso de como ficam as fotos; não saber que existe outra pessoa no estúdio com a fotógrafa até que a câmera mude de plano; não saber que Tereza irá contar um segredo a Louise pois seus movimentos em direção a ela pressupõem um beijo; tampouco saber o que é dito.

“Há sempre um lado que pesa
e outro lado que flutua,
a tua pele
é crua

Dificilmente se arranca a lembrança,

a lembrança,
a lembrança,
a lembrança”

(Crua – Otto)

Enquanto o cantor Otto diz em Crua que as vivências não podem ser arrancadas da pele, Carlos Segundo mostra isso em De Vez em Quando eu Ardo. O processo fotográfico que propõe uma simbiose de dois corpos transfigura a música em imagens. E dentro do próprio filme, a antiga máquina fotográfica é utilizada com esse propósito, de dar um novo sentido às imagens, às sensações, na tentativa de capturar algo novo, algo que ainda não foi sentido por aqueles corpos ou mostrado nas fotografias. A forma como o filme brinca com o que é visto e o desconhecido (ainda não visto ou sentido) ganha força com o jogo do claro e escuro durante todo o curta, seja nos corpos, nos roupões usados por esses corpos, na construção física do estúdio que se esconde na própria rua. Jogo esse que se destaca também, para além de toda a estética do filme, na formação das fotos, no funcionamento da câmera pinhole que capta esses corpos através do choque entre a luz e a falta dela.

A luz e a falta dela. E a falha dela. E a fala dela.