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Por Kit Menezes

25 de Março de 2021, 16h08

Quando as palavras já não são suficientes

Assistindo as primeiras cenas do curta Preces Precipitadas De Um Lugar Sagrado Que Não Existe Mais, dirigido pelos cearenses Rafael Luan e Mike Dutra (2020), me vieram imediatamente as palavras de Carol Almeida, ditas logo no primeiro dia da Oficina de Críticas Urgentes, oferecida na programação da Mostra Cinema do Presente: “A gente está tão condicionado/a a compreender e interpretar tudo, que a gente não sente. Isso é colonização. É preciso reaprender a sentir o filme antes de interpretar.”

Preces Precipitadas tem início com a imagem de uma encruzilhada, um espaço, portanto, de encontros, cruzamento entre o mundo material e o divino. É a primeira cena do filme e fica ali mais de um minuto, marcada por linhas e formas geométricas em simetria. Trata-se de uma rua, em um bairro simples. A imagem fica alguns segundos parada na tela enquanto ouve-se um diálogo que antecipa a presença de dois personagens que logo entram em cena – Breno e seu amigo. Eles falam sobre o horário do ônibus que precisam pegar. Conferem o relógio e correm em direção à câmera que acompanha os dois ao virarem a esquina. Corta para um muro pixado. Breno e o amigo entram em quadro. O amigo diz que o ônibus já passou. Breno não entende. O amigo repete. A imagem falha, parece uma fita VHS danificada. Um cachorro late. O amigo repete mais duas ou três vezes confundido sua voz ao latido. Breno não entende. A falha na imagem aumenta. Blackout.

 

A cena seguinte abre com um plano médio de Breno. Ele se vira para a câmera no meio de um nada obscuro. Blackout. Entra o título. Em seguida a câmera abre em plano fechado em Breno que boia em uma represa. Ele é recebido por uma mulher, um corpo dissidente. O diálogo que se segue mantém a tensão: o/a espectador/a é
definitivamente capturado/a – ele/a precisa saber o que vai acontecer agora:

 

– Você é real? De que ano tu veio? Como é que eu vou saber que tu não é mais uma armadilha que colocaram aqui?

 

– Eu tava tentando voltar pra casa só. Eu e um amigo meu…voltando do reggae e… tava tarde… não passava ônibus e….

 

– Tu vai entender.

 

O curta de 23 minutos segue com pequenas surpresas que renovam a atenção na narrativa: frases que parecem saídas de um diário atemporal: dia 164 na zona de sacrifício – narra a voz de Breno. Ou a Zuri te falou sobre os esquecidos? – pergunta umas das duas garotas, revelando que a beleza também mora no nome, de origem africana, usado para identificar uma delas. O filme segue se revelando nas sutilezas: enquadramentos precisos. Figurinos que se camuflam vestindo pessoas brancas atrás das portas. Paisagens e cores em referências claras aos Orixás. Tudo parece fazer sentido num plano maior que não se traduz a um olhar desatento.

 

Interessante notar que o filme, produzido por alunos de Realização em Audiovisual oferecido pela Escola Pública de Audiovisual Vilas das Artes, subsidiado pela Prefeitura de Fortaleza, aponta um imaginário potente, corajoso, em processo de descolonização. Uma estética que insere a possibilidade do onírico em diálogo com a distopia; uma proposta que permite apreender a realidade de um outro lugar que não o racional. Muito apropriado neste momento em que habitamos um lugar onde as palavras já não são suficientes.

 

Noto que a curadoria do festival trouxe outros filmes com características semelhantes. Filmes que também falam de um presente que se desdobra em outras dimensões – temporais, geográficas ou ainda não identificadas – talvez apenas desejadas – trazendo possibilidades de corpos, paisagens, metáforas. 

 

Eu ousaria dizer: a mim, chegam como filmes de esperança.