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Por Adriana de Faria

25 de Março de 2021, 10h51

O barco, o rio e o que pode a mulher olhar

Diante da janela de um barco, uma mulher percorre o caminho de um pensamento que não sabemos qual é, com os olhos voltados para o chão. Vera (Isabela Catão) sai desse estado meditativo e levanta o olhar, mas antes que alcance o lado de fora, volta a baixar a cabeça, dessa vez ainda mais inclinada – quase submissa. No canto da imagem, um guardanapo de pano tem os dizeres “O teu Deus ordenou…”. 

 

Ao iniciar “O Barco e o Rio” com esta cena, Bernardo Ale Abinader, estabelece para nós espectadores o que está autorizada aquela mulher a olhar. Vera é uma religiosa, que vive com a irmã Josi (Carolinne Nunes) dentro de um barco no porto de Manaus. Para quem, assim como eu, mora na Amazônia, sabe que um barco para grande parte da população é mais que um meio de transporte, é o peixe fresco na mesa, é o açaí atravessado, é o sustento e a própria vida.

 

“Esse barco é tudo que a gente tem.”, Vera rebate quando Josi sugere vendê-lo. A relação entre as duas é obviamente conflituosa pelas formas que enxergam a vida. Josi recosta-se na madeira do barco e mira o horizonte pela abertura da porta, desejando ir além de Novo Airão até Barcelos. Para Josi, o barco, que um dia foi movimento, torna-se moldura, uma que a irmã já nem mais parece perceber e aquela pela qual nós mesmos navegamos com o filme.

 

Veja, há um exercício constante de explorar o olhar de Vera, dentro da moldura-espaço-tempo do barco, como metáfora para as margens fluidas entre desejo, repressão e libertação. Em uma das cenas, Vera tenta escutar o rádio sintonizado em um culto, mas os sons da festa do lado de fora a chamam para o mundo. Ela tenta resistir, porém finalmente se autoriza a olhar e se deleita por alguns segundos com o que vê. 

 

Como Eva, ou Medusa, ou Pandora, Vera ao autorizar-se o olhar, abre espaço para a invasão do pecado e da punição. Ela tenta se desvencilhar da imagem vista e volta para o interior do barco onde o som do rádio torna a ser alto. Como que para fechar os olhos, ela apaga as luzes e deita-se na cama, desligando as vozes que reforçam a culpa de sua subversão. 

 

O fruto, no entanto, foi mordido. A caixa, aberta. E Vera olha a si mesma na intimidade do escuro em uma cena que é das mais honestas sobre a sexualidade feminina captada principalmente pela fotografia de Valentina Ricardo. A chegada de Josi com o acender das luzes restabelece para a personagem de Isabela Catão um senso de vigília tão habitual para nós mulheres, e reforça a crescente distância entre as duas irmãs que se deitam de costas uma para a outra. 

 

Em uma cena anterior, antes de sair do barco para a festa, Josi olha-se em um espelho sujo enquanto lava o rosto. Mais tarde, com a partida inesperada da irmã, Vera vê seu reflexo no mesmo espelho, não sem antes limpá-lo. As duas, no entanto, não encaram a si mesmas e sim as imagens possíveis de seus passados e futuros. Josi carrega no ventre o desconhecido, fruto do desejo atendido, um corpo que não mais pode habitar ali – a “casa do senhor” pintada na parede. Vera apaga a sujeira para vestir o batom da irmã, que poderia traduzir-se em uma saudade ou na tentativa de descobrir sua outra versão. Este espelho – de Josi no início do filme e Vera mais para o final – é a única vez em que seus olhares voltam-se um para o outro. A vertigem é nunca terem, de fato, se encontrado.

 

Após encontrar uma carta de despedida de Josi escrita em uma de suas fotografias juntas e que anuncia sua partida para uma viagem, Vera – e nós – saímos do barco para andar em terra firme. A passos incertos e nos gestos detalhistas de Catão presentes em todo o filme, Vera vai em direção à luz. Ela coloca as mãos sobre os olhos, que demoram a se acostumar com a liberdade de ver o que querem. E enfim, olha para frente com coragem ao som de um pô-pô-pô, prenúncio das águas que ainda virão.