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Por Francisco Fabiano

5 de Abril de 2021, 13h35

Filmando milagres: a textura do cinema queer

Desnecessário dizer que não deve existir uma pessoa queer1 realmente satisfeita com o modo como somos representados na mídia2. Nossa presença nas produções internacionais de grande orçamento pode quase sempre ser caracterizada em uma de três alternativas.

 

A primeira opção é que não existimos, ou que nossa existência é facilmente ocultável, no que eu chamo de “tática Disney”. Simplesmente não existe nenhum personagem explicitamente queer na obra em questão ou, se existem um ou dois, estes são uma “minoria comportada” e sua diferença do padrão nunca é mostrada ou analisada. Em uma variação mais ardilosa, uma produtora pode criar um filme onde ninguém se expõe como queer, mas depois dizer em entrevistas ou materiais publicitários que “personagem X foi gay o tempo todo, mas tivemos de cortar a cena na edição” ou coisa que o valha. J.K.Rowling e, mais recentemente, Marvel Studios têm, ambos, culpa no cartório nesse departamento. Mais do que qualquer coisa, essa alternativa reforça nossa invisibilidade ao afirmar que somos indistinguíveis da legião cis-hétero e não merecemos atenção e proteções especiais.

 

A segunda alternativa corre no sentido contrário, optando por representar ostensivamente a diversidade sexual dos seus personagens (ou, muito mais comum, de seu único personagem queer), quase sempre culminando no que o mundo cis-hétero enxerga como o símbolo LGBTQ+ máximo: uma cena de sexo homossexual. E, inevitavelmente, são filmes que terminam em tragédia. Uma das pessoas morre, ou encontra outro/a/e parceiro/a/e, ou o tão esperado romance nunca acontece, impedido pela sociedade cis-hétero dominadora. Alguns filmes, como “Me chame pelo seu nome” (2018, Luca Guadagnino) colocam o romance malfadado em primeiro plano. Outros, como “A forma da água” (2017, Guillermo del Toro) preferem fazer dele um sub-enredo por trás da trama principal.

 

Imagino que o que leve cineastas a fazer filmes desse tipo seja o mesmo tipo de instinto que leva empreendedores a construir zoológicos. É uma fixação extrema, quase colonial, em observar e catalogar aquilo que (secretamente) se considera inferior a si.

1 Para quem não sabe, “pessoa queer” é sinônimo de “pessoa LGBT(QIA+)”. Alías, o Q na sigla é exatamente pra queer. “Queer” é um estrangeirismo do inglês e atualmente usado como termo abrangente e inclusivo para qualquer pessoa considerada uma minoria sexual, romântica ou de gênero. Seu significado original em inglês é algo como “estranho”, “incomum” ou “diverso”. Já foi usado como insulto, mas foi reivindicado de volta pela comunidade como um termo de orgulho e união.

 

 Ao longo do texto, vou usar de linguagem primariamente cinematográfica pela facilidade da terminologia específica, mas todas as minhas afirmativas podem ser aplicadas a outras formas de mídia e arte, como literatura ou rádio.

Experimentar, em um ambiente seguro, uma forma monolítica e simplista da experiência queer e fazer do sofrimento dessas pessoas arte. Sofrimento que, vale lembrar, foi criado exclusivamente por estruturas sociais que agora se beneficiam dele. Engraçado que ainda não vi nenhum filme que fetichizasse para fins estéticos dificuldades que não fossem de uma minoria sexual, racial ou econômica, ou de pessoas com deficiências ou neurodivergentes.

 

E, como terceira alternativa, existe a paródia, por sua própria natureza construída sobre estereótipos e simplificações. O gay promíscuo, a trans não-passável, a sapatão caminhoneira, o bi confuso ou vira-casaca. É fácil entender como esse tipo de representação surgiu, considerando o quão propensa à auto-paródia a comunidade queer é. Somos obcecados com o jogo de máscaras e identidades que se traça à nossa volta e fingir ser algo (por exemplo, másculo ou feminino) é frequentemente uma maneira segura de ter uma breve experiência de como seria ser daquele jeito, em nossa busca por uma identidade mais confortável.

 

Mas, quando cooptada por cineastas de fora do nosso contexto cultural, essas representações se tornam caixinhas, delimitadores expressos do que é ou não aceitável de um indivíduo de determinada orientação. Além de ignorar completamente toda a qualquer interseccionalidade possível, esse tipo de representação invalida formas mais sutis e menos conhecidas de ser queer. Não existem (ainda) paródias conscientes de pessoas não-bináries ou arromânticas, só para citar alguns exemplos. Hollywood não pode simplificar e parodiar aquilo que não sabe que existe.

 

E, é claro, existem exceções. Existem, sim, alguns poucos filmes ou séries mainstream que conseguem representar bem o que é ser queer. Para citar alguns, o filme-biografia de Elton John, “Rocketman” (2019, Dexter Fletcher) e a série “She-Ra e as princesas do poder” (2018-2020, Noelle Stevenson) representam bem essa textura de uma vida queer. Mas ambos têm também algo de especial, do qual pretendo falar mais pra frente, na segunda parte deste texto.

 

 

Eu queria poder dizer que a cena independente conta com políticas representacionais melhores do que a cena comercial mainstream. De certa forma, ela conta. O número de realizadores queer, só pra começar, é bem maior, e o número de filmes com personagens que são parte de minorias sexuais, românticas e de gênero também.

 

Mas, mesmo sem o problema da invisibilidade, a exotização e a paródia ainda estão presentes. De certa forma, elas são incentivadas pelo modo de produção da indústria cinematográfica independente/universitária brasileira. Nossa preferência pelo formato de curta metragem pode ter origens econômicas, mas também se converteu em recurso estilístico e nos força a lançar mão de atalhos narrativos em nossos filmes, empregar ícones e índices de compreensão rápida que desfavorecem a profundidade.

 

Na corrida pela compreensão rápida, é normal que realizadores apelem para os símbolos fáceis da experiência queer que, para falar a verdade, costumam ser símbolos de uma experiência muito específica: a do homem exclusivamente homossexual cisgênero branco de classe média-alta, neurotípico e sem deficiências, que expressa sua homossexualidade através da feminilidade. E que transa. Transa muito, porque qual símbolo, qual prova maior de homossexualidade pode existir?

 

Eu queria que o sexo não fosse tão predominante nas nossas representações. É estranho falar de fetichização do sexo (parece tautológico), mas é isso que acontece. Existe um fascínio com a ideia de que o sexo gay é “mais sexo” do que o hétero, porque é mais apaixonado, ou a expressão verdadeira e final de uma identidade.

 

Mas a verdade é que a experiência queer vai muito além do sexo. Tem a dúvida, o questionamento, o medo de não se encaixar. Tem gente que se descobre bi depois de um casamento hétero e fica como está. Tem gente hétero que transa com alguém do mesmo sexo pra experimentar. E tem pessoas assexuais que não transam nunca. E isso não faz delas menos queer.

 

O que nos une como uma comunidade não é o esfregar de corpos, mas o enfrentamento conjunto de traumas e dificuldades globais. O medo de não pertencer, o jogo de máscaras e a confusão sobre nossas identidades. Coisas que expressamos com muita propriedade através de algo que tem um nome e características muito específicas: camp.

 

Camp é algo tão escorregadio que Susan Sontag conseguiu a proeza de escrever em 1964 um ensaio inteiro rodando em torno do tema mas sem encontrar uma definição precisa3. Talvez uma definição precisa aniquilasse o camp completamente, tão frágil ele é.

 

Mas, em termos simples, camp é a ideia e performance de expressar algo que se ama em termos de deboche e paródia afetuosos. Tem a ver com mostrar a sua paixão pela forma de algo; com estetizar a beleza da vida, apesar de sua tragédia. Oscar Wilde e seus epigramas são pedras fundadoras da cultura camp4. Assim como “The Rocky Horror Picture Show” (1975, Jim Sharman). Não é uma coincidência que ambos sejam muito, muito queer.

 

Pagando minha promessa, é isso que distingue “Rocketman” e “She-Ra” de outras produções mainstream com temas queer. São obras profundamente conscientes do próprio absurdo, que canalizam com sucesso a confusão e diversão que permeiam a vida de alguém que sabe que nunca vai viver a vida afetiva que Hollywood escolheu para nós.

 

E, quando damos sorte, aparece na cena independente brasileira um filme que entende essa textura da experiência queer e escolhe se expressar por meio dela em vez de através dos símbolos fáceis listados lá em cima. Um filme tipo “Tommy Brilho” (2018), de Sávio Fernandes ou “Negrum3” (2019), de Diego Paulino. Ou tipo “Os últimos românticos do mundo” (2020), que foi o filme que me inspirou a escrever esse artigo.

 

O filme de Henrique Arruda começa já apostando no estranhamento, os logos das produtoras aparecendo em cima de uma inexplicável paisagem digital vaporwave. Depois de alguns instantes, percebemos as falhas na imagem, como se o filme estivesse saindo de um VHS danificado pelo uso. E aí aparece embaixo da tela aquele textinho amarelo de Sessão da Tarde, “Os últimos românticos do mundo – parte 1”.

 

Em seus 20 minutos de duração o curta segue inabalável, sem vergonha de mostrar sua própria artificialidade, com direito a uma cena de videoclipe com lipsync. O enredo é de um casal gay que quer aproveitar o último dia na terra, antes de uma nuvem rosa vinda do espaço acabar com toda a vida no planeta. Camp puro.

 

O filme inteiro é quase um milagre, uma caminhada na corda bamba entre todos os clichês queer possíveis. Na primeira vez que assisti, admito que achei que ele fosse cair. Que fosse ser só mais um filme auto-congratulatório e vazio. Que o seu fascínio pela própria forma e falsidade faria o curta se dissolver em uma névoa de filtro rosa, referências jocosas e montagem musical.

 

Até que o terceiro ato entra com toda a força possível, descortinando todo o coração vulnerável e pulsante do filme. Começa a surgir beleza genuína brilhando através do deboche. E o roteiro vira 180 graus, expondo sofrimento e amor tão verdadeiros que eu perdi o fôlego.

 

 

É difícil encontrar algo que una todas as vivências queer. Os estereótipos que criamos para nós mesmos tocam em sensações e vivências quase universais, mas tendem a crescer para além delas. Somos mais do que o sexo, mais do que as máscaras que vestimos.

 

Filmes que celebram parte de nossa diversidade são importantes, mas precisamos nos lembrar que eles também apagam certas partes de nossa comunidade. Não somos deuses, e nos pintar dessa forma embaça a beleza individual de cada um de nós. Nossa pressa em nos auto-afirmar em termos positivos levou à criação de um “filme gay” arquetípico e a uma representação monolítica do que são uma comunidade e uma experiência muito diversificadas. Um arquétipo de filme que acaba retornando ao problema da exotização e não está equipado a lidar com sutilezas, interseccionalidades e com discussões sobre a nossa fragilidade.

 

A existência queer vai muito além de se auto-afirmar, bater em nazista e transar à rodo. Para entender nossa cultura, nossos traumas e nossa coletividade como grupo, não podemos nos fixar neles ou apagá-los. Precisamos reconhecê-los e rir na cara do perigo.

 

É isto.

 

Amem-se.

3 “Notas sobre Camp”, publicada primeiro na revista Partisan Review, depois no primeiro livro de ensaios de Sontag, Contra a interpretação.

 

4 Um dos meus preferidos é “gosto de homens que têm um futuro e mulheres que têm um passado”.