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Por Murilo Morais Oliveira

25 de Março de 2021, 11h21

Esta noite me tornarei mais um cadáver

Depois de assistir ao último curta metragem de Marcus Curvelo, lembrei de Zé do Caixão. Enquanto essa relação não se apresenta de forma direta – o gênero do horror, tão indissociável das obras de Mojica, não é tensionado por Curvelo -, os personagens-diretores dos dois compartilham de um profundo desconforto com as imagens, ou com a matéria visível de todas as coisas, categoria da qual as imagens fazem parte. O que transpira é a desconfiança em tudo que se apresenta diante dos olhos, as aparências.

 

Não é difícil encontrar expressões da desconfiança das imagens em Zé do Caixão. Ele declarava desejar o apuramento do sangue, a evolução do humano. Sua busca era pela imortalidade da carne, mas para isso ele precisa adentrar a carne, literalmente. Expor a carne à torturas, contorções, deformações. Como se apenas a superfície não fosse o suficiente para expor nada. Era necessário olhar por dentro, olhar os órgãos, as veias, revirar as entranhas. É um processo violento esse de querer expor (e, para Mojica, quase sempre à força) o verdadeiro valor dos seres. Paradoxalmente, a crença maior do personagem de Mojica está no Corpo. Para ele, o Espírito não é um caminho válido. No entanto, o Corpo, as aparências e as projeções são coisas que só tem seu valor reconhecido depois de um extenuante processo de deformação, horrorificação. 

 

Em A Destruição do Planeta Live a desconfiança é um dado. Um planeta que elegeu Bolsonaro, Trump e cia maldita aprendeu (ou deveria ter aprendido) a desconfiar das imagens e dos discursos – desde arminhas de dedo até copos de leite. E essa é a maior diferença entre Caixão e Curvelo: enquanto o personagem de unhas longas se contorcia em sua existência profana e colocava aqueles que entravam em contato com sua total estranheza em confronto consigo mesmos e a sociedade que os cerca (que, diga-se de passagem, era igualmente horrenda, apesar de cínica), Curvelo, ao se deparar com a mesma sociedade e desconfiar dela, escolhe um caminho de autodestruição. Ele dobra a aposta no cinismo, e ao fazê-lo apenas subscreve à política destrutiva regente. 

Talvez seja necessário algum tipo de análise da história contemporânea da comédia para podermos falar sobre a incidência de piadas autodepreciativas nos últimos anos e suas potencialidades políticas nas nossas vidas. Mas já que estou aqui, me permito um questionamento sobre o assunto: Seria a autodepreciação um processo válido de lidar com a dor? Ou apenas uma forma de adensamento viciante de nossa condição deprimente? Me parece que o processo de levar a cabo a autodestruição como forma de combater a macro-destruição é engraçado até o momento em que nos destruímos a nós mesmos.

 

A verdade é que Curvelo reconhece as falsidades. Darei o braço a torcer: o ponto forte de seu filme é, inclusive, conseguir traduzir certa imaterialidade à cada imagem. Como se cada plano pudesse se desfazer no ar. Não são raras as sequências em A Destruição… que transpõem a mesma força das miragens através do uso de sobreposição, montagem ou da experimentação com a tela verde. Como exemplo, me vem à mente o plano da arma apontada para céu noturno; ou talvez o do torturante asfixiamento por Baygon apenas para, em seguida, acordar ao lado de seu amigo Murilo e se matar novamente. No entanto, Curvelo está prostrado diante da energia externa opressora que ronda o filme. 

 

A crueldade do mundo em que vivemos está no fato de que não importa o quão pornograficamente explícitos sejam os horrores regentes. Desmascarar o projeto de destruição como tal por vezes parece inútil, pois a destruição e a farsa são as políticas de governo. Bolsonaro se elegeu numa plataforma de destruição e mentiras, para “destruir tudo que a política velha fez nos últimos anos”. A Destruição… é um filme envolto em um ar carregado com o peso de milhares de mortes diárias por um vírus tão invisível quanto real, destruição de florestas, memórias, museus. Sem falar das desigualdades e injustiças que cultivamos a tempos e que, em muitos momentos, não parecem arredar o pé. O domínio de ideias de morte está no ar, constantemente aumentando a pressão atmosférica sobre nossas cabeças.

 

É diante desse Brasil que Curvelo está prostrado. Afinal, não há como deformar o que já é disforme (e muito menos há vontade de reformá-lo). É por esse motivo que a força que o coloca nesse lugar de desesperança nunca é nomeada ou materializada. Ela já faz parte do ar. Ela ronda as imagens como um espectro opressor. E quando os horrores estão tão descaradamente expostos, eles parecem fazer parte da composição das moléculas. São naturais, não adianta lutar. Ao que parece, um dos frontes do empenho revolucionário continua a ser o esforço de convencer as pessoas de que algumas coisas não são de ordem natural, mesmo que alguns tenham convencionado chamar horrores inaturais de novo-normal. E que outros tenham achado a solução na autodestruição cínica. Talvez o ato de chamar o horror pelo nome, de contorcê-lo e mostrar suas entranhas até que ele se apresente em sua forma mais grotesca, como fazia Mojica, se faça mais necessário do que nunca.


Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: 

não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,

 pois em tempo de desordem sangrenta,

 de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, 

de humanidade desumanizada, 

nada deve parecer natural 

nada deve parecer 

impossível de mudar.


(Bertolt Brecht, Nada é impossível de mudar)