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Por Flora Nakazone

30 de Março de 2021, 00h30

Diante do mundo, um jogo de cartas

Os filmes, antes de se concretizarem, vivem antes como desejo de filme em seus realizadores. Numa inversão, provavelmente ficcional e bela, Huri, a protagonista de Colmeia, é quem chama um amigo realizador de cinema – Maurício Chades – para contar-lhe sua história.

 

Ela acha que essa história rende um filme. Huri é o nome que ela se deu ao sair da cadeia há pouco tempo. “Significa alguma coisa?” o diretor pergunta. “Não sei, gosto de como soa.”. É com esse tipo de singeleza, de alguém que está aquecida internamente o suficiente para confiar na experiência da beleza, que Huri narra sua história olhando em nossos olhos, enquanto céu e terra encontram-se em seu rosto. O lago, atrás de si, que atravessa, com variações, diferentes filmes da Mostra, ganha a expressão de seu semblante.

 

Em mais da metade do filme, Huri narra sua história de abuso e trauma com uma expressão de dureza cristalizada, como uma crosta de lava resfriada. Essa dureza é evidenciada por algo de infantil que sobrevive em sua expressão. Presa, foi uma vítima da injustiça, já que matou em legítima defesa. Sua mãe a abandonou, ninguém ouviu sua versão da história. É nossa a responsabilidade de testemunhar a injustiça que a acometeu – e o que fazemos com isso? Na cadeia, o estupro veio de outras presidiárias. Ela narra sem arroubos de revolta. Conta-nos de seus sonhos: trabalhar com cosméticos naturais. E um tsunami que destrói as casas dos ricos que ficam ao redor do lago.

 

Huri, quando o filme se aproxima de seus últimos minutos, mostra os únicos pertences que trouxe da colmeia, que é como ela chama a cadeia – um deles, um baralho de tarot. Ela decide jogar um jogo para o mundo e não para si mesma, como sugere o diretor. O senso de político é, nesse e em outros filmes da Mostra, o senso da sobrevivência. Uma vez consideradas morríveis e matáveis, as personagens sabem no próprio corpo que o seu destino é perseguido pelo destino do mundo. E se falamos de vida e morte, uma pergunta inaudita atravessa a vontade de viver: do que é feita a vida? Nos esforçamos para lembrar. Talvez por isso, Huri tira o jogo para a humanidade.

 

O outro pertence de Huri é um pote de vidro, em que ela guardou as unhas que cortou durante os anos na prisão. A personagem rompe a aparente naturalidade e realismo com que é filmada com a imagem fantástica, quase surrealista, de suas unhas amontoadas. Um portal se abre: ela se converte em uma figura mística e seu papel de condutora da relação com o diretor e espectador é expandido. Estamos, agora, em um ritual. Se um xamã é alguém que atravessa um processo de morte em vida para chegar a essa condição, Huri faz o mesmo, à sua maneira. Esse texto seguirá o jogo de Huri, analisando alguns movimentos comuns aos filmes da Mostra. Guiar-me por seu jogo parece ser a maneira de fazer durar a relação que ela nos convoca e experimentar um pouco de como a vida a guiou em sua sobrevivência.

 

O Sol: algo novo deve começar.

 

Desde o personagem que não sabe se dá um tiro na cara ou faz uma live em A destruição do planeta live, ou aos protagonistas de Os últimos românticos do mundo, dos poucos a nos fazer rir no festival, a quase impossibilidade do futuro ou o fim do mundo parecem ser o horizonte assumido ou latente dos filmes da mostra.

 

Frank O’Hara diz que em tempos de crise, devemos decidir uma e outra vez sobre quem amamos. E o que diríamos, se essas fossem nossas últimas palavras? Penso que os filmes abordados aqui carregam essa urgência do amor diante da destruição.

 

Há certo traço de juventude – aposto, talvez erroneamente, que os/as realizadores/as do festival estão majoritariamente condensados na faixa dos 20-30 anos. Essa geração, que cresceu com certa confiança de prosperidade econômica, inclusão na universidade e avanço nas discussões das ditas “pautas de costumes” no início dos anos 2000, encontra-se em um cenário de catástrofe ambiental se avizinhando, misturando-se à ascensão dos movimentos de extrema direita, formando um caldeirão especialmente distópico no caso do Brasil. Aqui é o fim do mundo.

 

Dessa maneira, os filmes parecem perguntar: o que podemos, quando a lógica de mundo que está em decadência e se prolonga como um cadáver que é “burro e feio não morre nunca”, como o poema de Mário de Andrade, ataca de maneira preferencial e mortal aqueles cujas lógicas de vida potencialmente portam os possíveis respiros e antídotos para começarmos a imaginar um novo mundo? O que fazemos se somos nós os corpos preferencialmente atacados, quando somos nós os primeiros “morríveis”?

 

O elemento fantástico e fabuloso que aparece em diversos filmes parece não somente uma tentativa de lidar simbolicamente com o próprio desejo de futuro, mas aponta que a crise que enfrentamos parece passar por nossas mitologias coletivas. As histórias também estão envenenadas. Ayahuasca, tarot, religião afro, as bichas na cachoeira, indígenas, o não binarismo, a periferia. A velha questão sobre o que é Brasil e como se funda o Brasil se atualiza nas temáticas e paisagens dos filmes. Para mim, foi impossível não fazer alguma associação com o projeto afrofuturista, enquanto assistia aos filmes. Está em nossas mãos a tarefa de uma fundação?

 

A Justiça: a condição do novo mundo.

 

Se o futuro parece impossível, o que nos orienta no presente? É o passado? Os filmes parecem terem sido feitos por realizadoras/es que estão no limbo de Preces precipitadas de um lugar sagrado que não existe mais. O protagonista inicia o filme correndo para pegar o último ônibus em um ponto incerto. O ponto de ônibus, o lugar “entre” por excelência nos centros urbanos, é o portal que fantasticamente coloca o personagem boiando em um rio, uma zona límbica chamada “Zona do sacrifício”. As águas do lago, no qual Huri senta-se à borda, e as águas do rio sobre o qual as personagens de O barco e o rio vivem seus dramas, aparecem aqui. A figura que o acorda é de uma jovem aparentemente trans/não-binária e que é sua guia nesse novo ambiente. O personagem encontra-se com outros ali, chamados “os esquecidos”. “Aqui a gente precisa gravar nossas memórias”.

Os ecos da emergência climática e a necessidade de uma outra relação com o que chamamos de “natureza” se fazem presentes pelo embate de ambientes urbanos e naturais que atravessam os filmes. A “Zona de Sacrifício” parece o lugar que se faz possível para uma geração que sente o passado se fazendo presente em suas vidas em forma de violência. Ou o futuro olha as feridas abertas da violência colonial, racial, de gênero ou não será, é o que parecem dizer.

 

O refúgio desses personagens não é o passado, mas o desejo por reparação histórica é condição para os passos para sair da Zona e construir o futuro. Em Preces, o protagonista deseja retornar ao passado para refazer a história. “O bom disso tudo é que a gente vai pegar de volta o monopólio do futuro”, diz triunfante a moça que também está presa no limbo. Huri também sonha com as casas dos ricos destruídas por tsunamis, e o diretor as incendeia ao final do filme, nos oferecendo sua contemplação silenciosa. Em A destruição do planeta live ouvimos: “O Lula vai vencer, a gente vai ter reparação no país. As pessoas brancas e burguesas, as oligarquias, elas vão pagar por tudo que elas fizeram. Vai ter retomada de terra pelo povo indígena, as plantas vão voltar a crescer na Amazônia, não vai ter mais nada desmatado. A gente vai ter reparação. A gente vai ter justiça social, reforma agrária, sabe? A gente vai ser uma grande nação. Soberana. Justa.” Ao som de gargalhadas.

 

O Mago: as qualidades para nos levar para o novo mundo.

 

Os filmes nos convocam à revolução? À resignação? Ao desbunde? Isso não parece claro. Talvez a dificuldade em encontrar certa coesão na maneira de enfrentar a profunda crise (ou crises?) derive de que as soluções parecem esbarrar nas singularidades de cada um. A valorização da agência no falar por si próprio traz consigo, talvez num primeiro momento, o risco, que não queremos correr, de colocar palavras na boca do outro. É aí, em nossas singularidades, que procuramos as respostas?

 

Simultaneamente a isso, o tipo de aprofundamento do neoliberalismo que o mundo atravessa há algumas décadas infiltra-se ainda mais na psique, nos desejos e sonhos, acuando o campo da singularidade. Assim, nos deparamos com uma espécie de deserto interior no qual buscamos fontes. Além das diversas formas de sofrimento psíquico que somos acometidos, não sabemos como sonhar e imaginar. Não à toa, a frase se tornou popular: é mais fácil imaginar o fim do mundo – e quantos filmes há sobre isso! – do que o fim do capitalismo.

 

Talvez, de maneira latente, a consciência de que não é possível “resolver” (e o que é esse desejo de resolver?) o que chamarei de “a neurose do mundo” individualmente atravesse os filmes. Mesmo coletivamente, uma única geração não é capaz de transmutar e transformar completamente o presente. Esse tipo de consciência faz reformular a relação com o tempo, as noções de individualidade, de si mesmo e de outro, e parece que assistimos nos filmes ao esforço e à tentativa, por meio da ficção, dessa elaboração. A vontade de cura de si e do grupo se expressa de maneira mais ou menos direta.

 

O Louco: quem precisamos ser para habitar no novo mundo.

 

Gosto de associar a figura d’O Louco ao momento do Big Bang. Um instante em que os limites estão superados e que há uma conexão entre tudo. Huri diz com sabedoria: todos somos O Louco antes de vivermos o trauma.

 

O Novo Mundo de Huri, que é o mundo que precisamos inventar, precisa ser habitado por outras pessoas. Somos figuras de trânsito, passagem, como é o Louco: feridos que precisam respeitar sua ferida e ir além dela, saltando. Huri joga suas unhas acumuladas no rio.

 

O Louco, primeira carta do Tarot, e sem número, conversa com a origem desse texto: por que escrevê-lo seguindo um jogo de Tarot? Porque um jogo de Tarot, de certa maneira, nunca acaba. Ele faz o que o Jung diz em “Memórias, sonhos, reflexões”: que nossas vidas apontem para o infinito. Assim, para além da investigação, análise e crítica minuciosa sobre quais formas de organização devemos buscar, sobre quais são nossos pontos cegos e qual o preço de adentrá-los, o Tarot parece nos pedir isso: procurar as respostas como quem amplia a pergunta originária, como quem não elimina o enigma.