Sobre         Apresentação         Filmes        Críticas         Oficina de Críticas Urgentes         Equipe         Contato

Por Mariana Peixoto

30 de Março de 2021, 13h20

Conflito e redes de afeto

O conflito é um dos motores da nossa sociedade, e como nos portamos frente a ele é parte importante de como vivemos em sociedade. Foram essas as palavras que me vieram à mente ao ler o título do 4° programa que compôs a Mostra do Presente – Diante do Conflito. O conflito não é necessariamente ruim, mas pode ser. E como o texto curatorial do programa aponta, a seleção prezou por histórias sobre como o ódio do mundo nos impede de sermos quem queremos ser. Nesse caso, o conflito é entendido na sua dimensão mais negativa possível: quando nossa reação frente ao conflito é a de aniquilar o que está do outro lado.


A construção curatorial desse programa foi o que mais me impressionou. Assistindo-o, lágrimas das mais variadas correram pelo meu rosto: de raiva, tristeza, incômodo e até mesmo uma certa felicidade. Existe uma linha que costura esse programa, que é justamente a da rejeição da expressão das individualidades do outro, enxergando-o ora como alguém que não deveria existir, ou como alguém que existe com um papel bem definido na sociedade e não merece qualquer outro tipo de atenção.

A evolução que vai sendo construída curta a curta dá nuances a essa temática que alinhava todos juntos. Bicha-Bomba abre a seleção com um dos filmes que considero mais potentes da mostra. Um filme ensaio-denúncia, composto de imagens de uma criança (sendo criança) e relatos de um crime real e dolorido de ouvir sobre: o assassinato de um filho pelo próprio pai. O motivo? “Ser muito sensível”.


A junção de elementos que se complementam – vídeos de uma criança gay vivendo uma infância aparentemente feliz e os relatos do assassinato de Alex – machuca pelo choque de dois imaginários opostos. O primeiro de uma criança que teve a liberdade de ser quem era, que teve pais que ao se verem confrontados com uma realidade diferente da que imaginaram não assumiram uma dimensão negativa do conflito, e souberam respeitar essa subjetividade. Neste caso, trata-se da subjetividade do diretor do filme (Renan de Cillo), que é o menino das imagens. E a segunda, que representa tudo que há de pior no conflito, com um adicional sádico e trágico: a própria pessoa que colocou Alex no mundo é a que o tira o direito de existir.

Se em Bicha-Bomba o direito de se expressar e ser quem se é torna-se negado, em Meninos Rimam é negado apenas o respeito pela própria subjetividade. O mais triste é ver que é o próprio protagonista é quem se nega o direito de ser ele mesmo, isso é, o direito dele de gostar de meninos também.

 

A leveza do filme de Lucas Nunes traz aquele sentimento gostoso de ser adolescente e se descobrir. A cena em que Artur e Alexandre compartilham o primeiro e único beijo tem ares de inocência e afeto compartilhado entre amigos que se conhecem desde sempre e estão descobrindo juntos o que é a adolescência. Os close-ups nas mãos que se esbarram ao caminhar lado-a-lado, os olhares com um flare e uma câmera que enquadra o outro sob um raio de luz belíssimo são todos resquícios desse afeto.

 

Afeto que vai se esvaindo aos poucos, sem nenhum motivo aparente, se não o medo dos próprios meninos daquilo que não é o “normal”. Um medo que nos é ensinado desde sempre. Um medo que faz Artur se afastar de Alexandre, e escolher dar seu segundo beijo em uma menina.

 

Os conflitos internos também são conflitos, afinal de contas, mas nossas resoluções conosco mesmo por vezes são dúbias e não muito certas de si. Por isso, esse medo não é capaz de matar os sentimentos que existem. E o filme termina com uma câmera que entrega uma combinação do close-up nos braços que se tocam e uma luz do sol que banha os dois andando pela pista de skate. O amor e o afeto resistem, mesmo quando insistimos em negar a nós mesmos.

 

Valdira ainda fala sobre se negar, sobre como os conflitos internos acabam por “matar” aquilo que somos. E nesse curta de 2 minutos, a raiva e o descontentamento consigo mesmo se expressa na atitude do diretor Felipe Marcena, ainda criança, que rasga e se corta fora de uma imagem em que dançava uma coreografia da Xuxa com suas primas. O preconceito que vem de fora se instala na nossa cabeça e causa esse tipo de conflito, que acaba num ódio a nossa existência.

 

Mas Valdira, a avó de Felipe, não aceita. Responde ao ódio do menino contra a imagem – que representa a própria homossexualidade – guardando o pedaço da foto que ele rasga. E às vezes tudo que precisamos para silenciar esse auto-ódio é só isso, alguém que não nos odeie. Alguém que vê o conflito que acontece dentro da nossa cabeça, e responda a ele com carinho e amor, com respeito, e com palavras carinhosas.

 

Você já tentou olhar no meu olhos? fala justamente da falta de palavras de carinho e de afeto que um homem negro experimenta. Se em Valdira são elas que salvam, como é possível que esse personagem, que nesse caso é alvo apenas do olhar hiperssexualizado e nunca é visto como alguém “digno” desse carinho, vai se salvar do conflito interno que a sociedade plantou nele desde o dia em que nasceu? Como ele vai parar de achar que é mero objeto de desejo sexual, e não é digno de amor?

 

Se a mostra começa potente e angustiante com Bicha-Bomba, ganha um respiro com Meninos Rimam e Valdira, ela termina voltando para a angústia e o incômodo, que ressoam e ficam com a gente depois que a mostra acaba. 

 

Pensar em como o mundo e a sociedade nos colocam em posições em que nós somos capazes de nos odiar é, para mim, a segunda maior potência deste programa. Porque a primeira é a urgência de pensar como a  LGBTQfobia (e toda espécie de violência contra minorias) efetivamente mata pessoas. O programa “Diante do Conflito” é coeso e forte, começa com uma porrada e termina com outra porrada, ambas necessárias, ambas urgentes e que precisam ser discutidas.