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Por Ana Júlia Silvino

19 de Abril de 2021, 19h00

Aquilo que os olhares me revelam

Pés, tronco, genitália. E, por vezes, olhos que não perduram na tela. Escuto uma respiração ofegante – e onipresente – que parece operar como fio condutor das transições fotográficas. Vejo nessas imagens uma aspiração desavergonhada a um gesto, uma tentativa de propor uma segunda ordem de visibilidade para os corpos negros masculinos. Acordos tácitos de veiculação das imagens que configuram modos de representação. De início, essa relação câmera-corpo é explorada através de planos detalhes de partes específicas do corpo – escuro – de um homem que se olha em um espelho de moldura branca. Aos poucos ele começa a se despir: primeiro os sapatos, depois as meias, a calça e a camisa.

 

Panturrilha, costas, pescoço. Às vezes, olhares que vagam. Sei que mesmo quando me olha de volta, o tema ainda está lá, subjacente. A voz reitera o discurso das imagens ao mesmo tempo em que a respiração instaura o perigo que não se vê. “Ah mas… nada sério” ele diz. Tudo transparece naquele ritmo que não é só fotográfico, é técnico. Mas o ritmo também é fluido, desconjuntado, angustiado, algo que a película fotográfica se recusa a registrar. Agora, o vejo nu e não consigo me lembrar dos outros modos de representação. Historicamente, sempre foi assim. Genitália. Tronco forte. Costas. Eu já ouvi isso que murmuram muitas vezes, e também já percorri o olhar desmedido por essas imagens em outros lugares, outras configurações. “Acho melhor eu não dormir aqui”, ele pontua.

 

Um corpo que dorme sozinho e que não tem nome, endereço, gostos pessoais, subjetividades. Quando olho pra esse corpo, as imagens me ardem os olhos. Qual o gesto para com esse corpo? O olhar e a montagem não me parecem dar conta de registrar aqueles que vieram antes dos registros. Pra mim, o olhar na montagem mecânica é apenas premonitório. Quando procuro subjetividade nessas imagens, já não estou no mesmo lugar quando retomo o tema. Estou aqui, tentando fazer danças por um texto sobre uma obra alegórica que procura a mimesis daquilo que é irrepresentável. E depois da tela preta, tenho ânsia em perguntar: e agora? 
o que acontece agora que te olhei nos olhos?