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Por Danilo Lima

30 de Março de 2021, 00h10

A violência também se atualiza, como o análogico para o HD, atente-se

Uma década de 90 televisiva, câmeras filmadoras registrando situações familiares, escolares, na rua, banhos de mangueira, apresentação teatral na escola. Há detalhes no gesto do protagonista que convidam a lermos sobre a corporalidade. Mas podemos seguir um percurso ainda mais íntimo, pois há reminiscências a serem exibidas. Conhecemos a memória de uma narrativa muito comum entre os sujeitos que conduzem a sua sexualidade de modo franco em meio ao regime heteronormativo, este que possui uma colagem em nossa subjetividade como única, ora essa. Ao cinema, linguagem de arte, um trabalho de conclusão de um curso universitário nos agencia a relembrar e/ou apresentar em voz off e imagens de arquivos pessoais, assim como uma informação de um documento de óbito infantil, a fragilidade e o profundo acoplamento de negação do outro como singular. 

 

Com o filme Bicha-Bomba, fica complicado falarmos de pluralidade que existe na singularidade, pois percebemos que o filme revela que o singular foi alvo de violência que leva à falência, assim como tornar o sujeito capaz de distanciar-se de sí, e/ou de ter tido chance de viver o seu plural. Houve a morte. Ela, como o fim. E aqui o cinema nos relembra que esse fim é reticente, pois ele nos relembra uma vida que foi ceifada. Vida essa desconhecida para muitos de nós, mas que já faz parte (e isso é grave) dos boletins policiais na TV ou jornais impressos, assim como nos grupos de whatsapps. E nesse sucumbir de vidas e mais vidas, evidencia-se a nossa ineficácia enquanto comunidade. 

As vozes em off se arriscam em sublinhar a gravidade da história, sem sons diretos, temos uma analógica imagem protagonizada por uma criança, um menino (para os que se servem da binaridade). O filme não é somente trazer o menino para a cena, mas a escolha de sua imagem estar no filme.

eu ATÉ não queria te questionar deus.

Um falar de si que engendra outras coisas, e não há a intenção de resolver, porque não resolve. O filme nos dá a ver uma elaboração auto reflexiva, um retornar experiências e a realizar crítica sobre o contexto dessa singularidade.
Lançar os recursos que ele tem e os tornar poéticos.

eu ATÉ não queria te questionar deus.

Trabalho de conclusão de curso universitário, 2019, participando de festival. Há um trecho do livro Teatro latino-americano em diálogo da autora Sara Rojo: “herança das transformações nascidas das experimentações dos teatros universitários”. Encontrar obras universitárias dentro desses contextos de eventos, possibilita o acesso a experimentações que podem colaborar com o rompimento de estruturas de pensamentos e modos de ver sobre a linguagem.  Signo de feminino, o cabelo.


O uso da constituição para a defesa da criança e do adolescente. A Vera Verão como imagem da bicha, não um gay, mas bicha, preta. Ela sofrendo ameaças dos espectadores. Os espectadores que acham que há ali um diálogo quando xingam ela. A criança que, ao escutar isso, associa a imagem como errônea, se vê sucumbindo. O filme encerra, os VHS estão guardados, as imagens seguem em meu pensamento, a estática de homicídio contra sujeites lgbtqia+ não cessa, os sentimentos são de recuo e também tomadas de posição, há um reverbe em escrita para a obra e sutilmente a revolução está em curso.